Estimular brincando

˜Todas as crianças precisam de estímulos durante os primeiros anos de vida para desenvolverem a capacidade cognitiva. Os estudiosos e neurocientistas explicam que até os dois anos o cérebro humano atinge 80% do tamanho adulto, com intenso desenvolvimento das áreas do lobo frontal associadas à linguagem, ao movimento, à cognição social e emocional.

As primeiras experiências vivenciadas durante esse período, bem como o ambiente no qual estão inseridas, são decisivos para a formação integral, repercutindo futuramente sobre suas condições gerais de saúde, de aprendizagem, sócio-educativas e comportamentais.

ESTIMULAÇÃO PRECOCE

Se as crianças sem qualquer defasagem intelectual precisam ser estimuladas, para a criança com síndrome de down, a chamada estimulação precoce é fundamental.

Formou-se um consenso, entre os especialistas, acerca da imprescindibilidade das terapias – principalmente da fisioterapia, da terapia ocupacional e da fonoterapia – para auxiliar a criança com síndrome de down a se desenvolver em toda sua potencialidade, compensando a deficiência intelectual e minimizando os efeitos de alguns dos problemas associados à sua condição, a exemplo da hipotonia, da frouxidão das articulações e ligamentos (hipermobilidade articular) e das possíveis alterações respiratórias e doenças cardíacas congênitas.

Tenho aprendido que o acompanhamento de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e psicólogos, principalmente nos primeiros dois anos de vida, proporciona maior dinamismo à atividade cerebral, aumentando o número de sinapses. Por isso, quanto mais cedo forem proporcionadas as técnicas de estimulação (inclusive multisensorial), mais rapidamente, em tese, as crianças com síndrome de down poderão adquirir as habilidades físicas e cognitivas necessárias às atividades da vida.

Abaixo, fotos das sessões de fisioterapia e de fonoaudiologia que nosso Alvinho vem realizando desde a primeira avaliação multiprofissional, com um mês de vida.

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A primeira lição que recebi, como mãe de uma criança com síndrome de down, é que meu filho poderá fazer tudo o que as demais crianças fazem, desde que respeitado seu ritmo de desenvolvimento, naturalmente mais lento.

Devidamente estimulado, o pequetico tenderá a ultrapassar cada etapa de seu desenvolvimento físico e intelectual com menor tempo de defasagem, em comparação com o tempo esperado para o desenvolvimento das demais crianças sem síndrome de down.

A respeito do tema “estimulação precoce”, uma das leituras mais significativas com as quais me deparei, ao pesquisar, foi a constante do “Guia de estimulação para bebês com síndrome de down”, elaborado pelo Movimento Down (versão ampliada editada em 2014). O Guia traz inúmeros exercícios para  serem incorporados à rotina das atividades diárias e ensina, por exemplo, como carregar o bebê nos braços e como segurá-lo no colo para fortalecer sua musculatura.

Outra fonte importante de informações foi o Curso de Desenvolvimento e Estimulação Infantil a partir de brinquedos e brincadeiras, do qual Maykon e eu participamos na segunda quinzena de outubro, ministrado pela fonoaugióloga Katya Cabrera Rodrigues, da empresa Estimulando e cuja apostila ensina:

“A estimulação precoce através de materiais lúdicos e brincadeiras estratégicas, além de propiciar alegria, prazer, relaxamento ao bebê e desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e de linguagem, também estimula o vínculo afetivo entre pais e filhos.”

Realmente, a estimulação precoce parece estar intrinsecamente ligada à aquisição de novos conhecimentos. E para aprender, nenhuma fonte de estímulos – sejam eles motores, sensoriais ou cognitivos – é mais poderosa do que a brincadeira.

BRINCAR PARA ESTIMULAR

No curso sobre brinquedos, Katya demonstrou que os jogos e brincadeiras, além de ferramentas terapêuticas, socializadoras e cognitivas, são os melhores veículos de integração entre pais e filhos, por fortalecerem os laços afetivos.

Com efeito, tudo o que tenho lido e ouvido sobre estimulação precoce me leva a crer que o segredo para ajudar nossos bebês com condições especiais é simples e pode ser resumido em duas palavras: interação e amor. 

Claro que a fisioterapia, a fonoaudiologia, a terapia ocupacional, a musicoterapia e a psicologia são essenciais! E, claro que seus exercícios devem ser incorporados às atividades diárias com leveza e descontração. Mas brincar, despreocupadamente, com nossos pequeninos é imprescindível!

Quero, com isso, dizer que a missão de estimular suplanta o dever de lhes proporcionar as melhores terapias, incorporá-las ao dia-a-dia e adquirir brinquedos educativos.

A brincadeira, como técnica de comunicação e interação, é uma estratégia recompensadora que demanda apenas um pouco de imaginação e muita disposição para a felicidade! Não dependemos de brinquedos sofisticados e caros para proporcionar aos nossos filhos um mundo de cores, formas, sons, sabores, texturas e odores. Até tampinhas de garrafas PET podem ser transformadas em mini-chocalhos (vide as sugestões e dicas da Carol Rivello no blog Nossa vida com Alice). 

Minha avó paterna (saudades dela!) contava que, na infância vivida em uma pequena aldeia do interior de Portugal, fazia todas as suas bonecas com palha de milho!

Boneca de palha

Sim, brincar é a melhor forma de estimular porque toda brincadeira reproduz, em maior ou menor grau, os signos extraídos da própria realidade.

Assim, estimular crianças com síndrome de down é seguir o ritual terapêutico moderno, cuja importância não podemos esquecer, mas é, sobretudo, apresentar aos nossos filhos o mundo em que vivemos.

É conceder-lhes a oportunidade de aprenderem coisas novas, não desperdiçando as chances de com eles passear, cantar, ler, cozinhar, viajar, estudar, desenhar, sorrir e até chorar. É sonhar e se divertir a partir de experimentos simples! É construir, diariamente, os castelos imaginários de histórias encantadas e de criaturas mágicas! É dividir o sorvete sem deixar de lhes mostrar os sabores diferentes dos mais diversos tipos de alimentos (incluindo verduras, legumes e frutas). É reaprender a assistir desenho animado e a jogar games. É rodar pião, jogar bola, peteca, desenhar amarelinha na calçada e correr na praia.

E, nesse sentido, a estimulação precoce começa no dia em que, pela primeira vez, carregamos nossos filhos nos braços, vendo refletir nos olhinhos deles os nossos olhos …

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OBS: Nas imagens acima, o pequetico brinca com as pulseiras de bichinho que ganhou da tia Camila.

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